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segunda-feira, 25 de março de 2013

Entre o céu e a terra




Este poema, desde minha infância, me toca.
Encontrei-o um pouco diferente e sem autoria em vários blogs, entretanto, assim era na minha meninice. 
Escrevi e guardei, por gostar tanto.
Espero que aprecie, que toque você, assim como me toca.
Não despreze suas lágrimas, nem as de ninguém, quando verdadeiras. São importantes, devem ser respeitadas.

Com carinho,
             Lúcia Barros 



Entre o céu  e a terra

Osmar Barbosa


Conversavam durante o despontar da aurora uma Lágrima, uma Estrela, uma Pérola e um Orvalho.




Dizia ufana  a Estrela:

" Quem diria que eu tivesse o trabalho de descer das alturas luminosas para conversar com vocês três?
Não sabem que sou eu mais alta do que as nuvens e que posso talvez
fazer extasiar toda a amplidão?
Não tenho uma existência transitória.
Desde que o mundo existe acendo o firmamento por entre o universal deslumbramento.
Qual de vocês teriam tamanha glória
se não passam do chão?" 




Mas respondeu a Pérola vaidosa:

" Tu não passas de um grão de resplendor
metido na poeira do infinito.
Não és senão noctívago mosquito enquanto eu, lá no fundo dos oceanos
sou buscada e vendida aos soberanos
para ornar com reflexos siderais as coroas reais.

Valho mais que tu, e mais ainda valho
do que um simples Orvalho
e uma Lágrima , pequenas gotas
de mínimo valor"




Disse o Orvalho com mágoa:

" Nenhuma de vocês possui o encanto
de destilar em beijos
na face veludínea de uma flor.
eu venho lá de cima, radiante,
nos braços da alvorada
para cobrir o seio de uma rosa
e fazê-la contente em tal instante,
que vale a pena vê-la tão ditosa
e ver florido o coração da terra
engolfada no pranto.

Tudo em torno de mim tem mais viço e frescor.
Eis como sou feliz. Ou na campina 
ou no cimo da serra verdejante.
sou sempre uma esperança cristalina...
O meu brilho não tem competidor."

Calou-se o Orvalho. E a Lágrima?

Coitada!

Ela rolada,
na terra úmida e fria
nada ousava dizer.
"E que respondes tu?"

Perguntou-lhe a Estrela com sarcasmo.

Ela, tocada pelo róseo condão
do entusiasmo
com voz de mansidão
resolveu responder:

" Nasci para o sublime!
Sou o perdão no crime
e a vibração no amor.

Bailo no olhar risonho da alegria,
brilho no olhar tristíssimo da dor.

Sou a alma da ternura e da harmonia.
Sou até estribilho
na lira soluçante dos poetas.
Sou oração nos olhos dos ascetas,
sou relíquia de mãe em coração de filho
sou lembrança de filho em coração de mãe.

Fui eu, um dia, - juro-lhes por Deus-
que ensinei a saudade a soletrar adeus.

Não vivo sobre seios perfumosos
e colos orgulhosos
na ostentação efêmera do luxo,
porém, penetro o espírito do mundo,
do rústico mais vil, do pecador,
do santo, e até nas faces do Senhor
um dia já rolei... 

Eu lágrima pequena, penetrei
no coração de Deus
e fiz abrir-se extasiado - o pórtico dos céus!...
Não sei quantos pecados já lavei..."

A Lágrima calou-se de repente.
O silêncio, a tudo isso contemplava serenamente
na vastidão vazia...
A Estrela escondeu-se sob uma espêssa nuvem
e chorava arrependida...
A Pérola desceu à profundeza dos mares
e chorava também...
O Orvalho, tremulando sobre a relva,
também chorava...

E a Lágrima sorria...