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segunda-feira, 22 de abril de 2013

“EIS QUE FICARÁ GRÁVIDA” OU: NÃO SOMOS TODOS FILHOS DO CÉU ?


Olá!

Quer saber de uma coisa!? 
Qualquer dia destes acordo filósofa! hahaha

Gostei do texto do mestre em Filosofia Newton Tomazzoni,  professor da PUC-MINAS.
Por isto compartilho com vocês, exatamente como ele postou no Facebook, e, com a autorização do mesmo.


P.S.: Se o tamanho da fonte (letra) estiver desconfortável para ler, é só deixar um recadinho que mudo.

Abraçoo 

                          Lúcia Barros









Newton Tomazzoni, professor de Filosofia da PUC-MINAS.

Ola pessoal....mais uma provocação. Abraços

“EIS QUE FICARÁ GRÁVIDA” OU: NÃO SOMOS TODOS FILHOS DO CÉU ?

José Newton Tavares

“...o anjo entrou onde ela estava e disse : “alegre-te, cheia de graça ! O Senhor está com você !” Ouvindo isso, Maria ficou preocupada, perguntava a si mesmo o que a saudação queria dizer. O anjo disse : “ Não tenha medo, Maria, porque você encontrou graça diante de D
eus. Eis que você vai ficar grávida, e terá um filho, e dará a ele o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado filho do altíssimo”. ( Lc 1, 28-32 )


Com esses poucos versículos, os poemas sagrados tocam em nossa mais profunda verdade. A narrativa da anunciação desvenda, pelo lado de dentro, o grande mistério humano de estar distendido entre a necessidade antropológica da plenitude e a sua, aparente, impossibilidade histórica. Somos seres alienados de nós mesmos. Estamos sempre em busca de um lugar onde sempre estivemos, mas onde pouco estamos. Sentimos nos cantos mais obscuros do nosso ser que, além dessa precária e arrastada existência, mora em nós uma ligação indelével com nossos mais profundos sonhos de amor. Por mais que as evidências da dor e da tragédia pareçam imperar, nos recusamos a aceitar o veredito da realidade. Trazemos a firme certeza de que, apesar de tudo, o amor não morre com a maldade humana.


Em seu romance Guerra e paz, Tolstoi narra-nos os últimos momentos do príncipe André. Depois de muitas e árduas batalhas, o já velho guerreiro é atingido por uma lança que o joga, mortalmente, ao chão. Antes do fim, deitado sobre a relva, ele olha, então, para o alto e estas são suas últimas palavras ao seu fiel escudeiro: “Como é lindo o céu, como são maravilhosas as estrelas, que encanto é o universo. Pena que descobri isso, agora, no fim”. Essa é a nossa verdade. Nossa vida não é só batalha, conquista, poder. É beleza, poesia, delicadeza, amor, CÉU. É uma pena que, também nós, só percebemos isso ao cair da noite da vida. E o que fazer se nós só nos damos conta do que tínhamos quando já não temos mais? Estamos tão ocupados em buscar instrumentos para, um dia, sermos felizes, que não notamos a presença ululante da delicadeza da vida a nos rodear. De tão simples a beleza se perde no tempo.


A tradição cristã parece que nunca esqueceu esta verdade antropológica. Com muita delicadeza ela percebeu que nós não somos só filhos da terra: da transitoriedade, da fragilidade, da finitude e da deteriorização. Desde o início proclamou que, também nós, somos filhos do céu: da beleza, da eternidade, da infinitude, do ESPÍRITO. A narrativa da anunciação é a forma cristã de dizer que temos o chamado das estrelas...somos filhos do infinito.


Todos nós somos, a esteira de Jesus, também filhos do Espírito. Ele é latência humana. Tudo que afirmamos cristologicamente, deve sustentar-se, também, antropologicamente. Ou o que dizemos de Jesus tem a ver conosco ou não tem a ver com coisa alguma. Dizer que somos filhos do Espírito é dizer que somos totalmente novidade. Trazemos, sem dúvida, uma grande carga hereditária; participamos, com grande alegria, da milenar corrente histórica de gerações e gerações. No entanto, para além de nosso parentesco geracional, sabemos, por intuição do coração, que guardamos, em frágeis potes de barro, uma distinção singular.


Também nós somos filhos de uma virgem. O ventre que nos gerou foi único porque dele nasceu algo totalmente novo. Mesmo que uma mulher tenha vários filhos, cada gestação é uma novidade: quem ou o que será esta criança? Gostará de música? Brincará com os beija-flores? Chorará ao ler poesia? Ou será fechada como um baú pirata? Triste como um pôr do sol? Ninguém sabe, nem mesmo seus pais. Há um núcleo irredutível de silêncio guardado somente para o infinito. Por isso os pais de Jesus ficaram admirados com a profecia de Simeão (Lc 2, 33).


Cada gestação é uma novidade, um leque de possibilidades. Em cada uma há elementos novos: psicológicos, financeiros, existenciais... O sangue da mãe que alimentou o filho mais velho, não é, certamente, igual ao que alimentou o filho caçula. A ciência, com certeza, dirá que me engano, que não houve mudança nas hemácias, nos glóbulos brancos, no fator RH... É preciso, urgentemente, avisar a ciência que com a idade nós não ficamos apenas mais velhos, ficamos diferentes, capazes de ver com o coração.


Outro profundo engano da nossa cega civilização é acreditar que se faz amor com os genitais. O amor é fruto da palavra. Faz-se amor com a palavra e o ouvido. A fala é masculina, o ouvir é feminino. O verdadeiro amor é feito quando a fala (fálica) do amado penetra os ouvidos vaginais da amada, ou vice-versa, despertando seus sonhos mais profundos. Segundo Milan Kundera, amamos uma pessoa quando ligamos o seu rosto a uma metáfora poética. Amamos o corpo de alguém pela música que nos faz ouvir...o corpo é como um violão, uma flauta... : só é bonito porque de dentro sai música. O segredo do amor é ressuscitar na (o) amada (o) seus sonhos fundamentais, e isso é tarefa da palavra. O amor verdadeiro só acontece quando, além do prazer que o corpo sente, a alma ouve as palavras que moram dentro do olhar. Não! Não pensem que eu enlouqueci. Aprendi isso com minha Bíblia. Lá diz que foi assim que a nossa tradição entendeu a concepção do Deus menino: pelo sopro poético da palavra, penetrando os ouvidos virginais de uma menina de Nazaré. O divino só pode ser concebido quando a palavra faz amor com nossos sonhos mais profundos.


Somos todos filhos do céu. Somos todos filhos do Espírito. Somos todos filhos de uma virgem. Também nossas mães foram visitadas pelo grande anjo: delicado diálogo e gracioso encontro da alma com o corpo, do consciente com o inconsciente, da superficialidade com a profundidade, da terra com o CÉU. Pergunte a cada uma se aquele ou aquela que carrega no ventre não é fruto da graça? Também elas souberam (sabem), desde o instante da concepção, que carregavam (carregam) no seio algo divino, totalmente outro, filho do sagrado, FILHO DO ALTÍSSIMO.


O relato bíblico é verdadeiro. O sagrado, a beleza, o amor só pode ser filho do Espírito, do vento, do inusitado, de DEUS. Nossa experiência atesta que, no meio dos escombros da vida humana, emerge uma faísca de leveza, de sonhos e paixões, momentos de tão intenso ardor que nada nos remove a certeza de parentesco divino.


Não é possível que o brilho dos olhos de uma criança seja algo estritamente humano
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